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Maturidade emocional começa onde a birra termina

Nadia Oliver sorrindo junto ao mar

Nadia Oliver

Terapeuta psicanalista

Existe uma criança aí dentro de você. Uma criança que ainda faz birra quando é desagradada. Sobre esse pedacinho em você que ainda acha que o mundo tem que pisar em ovos para não te machucar — é disso que vamos falar hoje. E eu já sei que você não vai gostar.

A ilusão da maturidade

Eu costumo dizer que existem os adultos mimados e os adultos maduros. Até porque crescer não significa amadurecer. Eu não sei qual é a idade que está marcada lá na sua carteira de identidade, mas eu sei que o seu emocional para ser desenvolvido e para chegar à verdadeira maturidade vai precisar de uma decisão.

A decisão de se tornar uma adulta madura.

Não é porque você comemorou muitos aniversários que a maturidade veio. Aliás, o que mais existe por aí são adultos mimados. Pessoas que cresceram, que têm idade, mas que ainda não conquistaram maturidade.

A criança interior que você carrega

Você já se perguntou o que acontece quando alguém te desagrada? Você faz birra, mesmo que seja uma birra apenas dentro de você? O que é que acontece quando as coisas não saem conforme você esperava? Você fica nervosa? Você tem vontade de sentar e chorar? Ou você é a pessoa que se levanta para solucionar?

Pergunto tudo isso porque eu também era uma adulta mimada, e nem sabia. Até que um dia me disseram que a mágoa era a “birra” dos fracos. Fiquei p* porque essa afirmação me colocava, portanto, como uma pessoa fraca. Logo eu, que sempre me achei tão forte.

Fui lembrando num efeito cascata vários episódios de mágoa e percebi um padrão: a mágoa sempre aparecia quando alguém não fazia o que eu queria! Putz! Eu era mimada, e nem sabia.

Sobre essa expectativa infantil que você ainda carrega

Você não vai gostar do que vou te falar, mas vou dizer mesmo assim:

A mágoa é, sim, uma birra. Uma chantagem emocional sutil para punir e culpar o outro por não ser e agir como nós preferimos.

E depois de ler isso aqui você vai me odiar porque nunca mais você vai conseguir ficar magoado sem se perguntar: “qual parte de mim foi desagradada?” Essa expectativa infantil que você ainda carrega de que as pessoas têm que te fazer aquilo que nem você se dispôs a conquistar é o que te mantém no lugar de vítima.

Se alguém é agressivo, explosivo, maldoso… você realmente acha que isso tem a ver com você? As pessoas transbordam o que sobra dentro delas. Quem está ferido → fere. Quem está machucado → machuca.

O que te magoa não é quem o outro é. É a expectativa que você tem de como o outro deveria ser. De como ele deveria agir com você.

“Mas e quando o outro está errado?”

Vamos considerar esses casos em que o outro é agressivo e/ou cruel e que escolheu a dedo as palavras com a intenção pensada por anos para te ferir. Minha resposta é: não! Porque o outro é livre.

  • Livre para não ter por você o mesmo respeito e carinho que você tem por ele.
  • Livre para não te fazer o favor que você pediu.
  • Livre para não falar com você de forma gentil.
  • Livre para não gostar de você.
  • Livre, até, para ser um fdp!

Mas já parou para pensar que você também é livre? Livre, inclusive, para escolher não conviver com essa pessoa, ou para mudar ela de prateleira, na sua vida.

Você escolhe o seu sofrimento

Quando você escolhe ficar magoado, não só você age feito um adulto mimado, como você cria um problema para você. É como se o outro produzisse a causa, e você escolhesse pagar o preço. Afinal, a mágoa que você sente não vai nem mudar o outro, e nem te amadurecer.

Em última instância, a única finalidade dela vai ser te fazer sofrer. Você não é o centro do mundo, baby! Se você parar de acreditar que é sobre você, você vai parar de sentir mágoa e vai sentir compaixão.

A maturidade é uma decisão

A vida fica mais leve quando você decide amadurecer, quando você para de exigir que o mundo se adapte a você e começa a se adaptar à realidade do mundo.

Amadurecer significa:

  • Assumir responsabilidade: pelos seus sentimentos e suas reações, em vez de culpar os outros
  • Estabelecer limites: sem drama e sem vitimismo
  • Lidar com desapontamentos: sem transformá-los em mágoas permanentes
  • Praticar compaixão: entender que o comportamento do outro fala mais sobre ele do que sobre você
  • Escolher suas batalhas: nem tudo merece sua energia emocional

Você é livre para continuar com suas mágoas. Mas lembre-se: elas só afetam você. Vale a pena? A questão não é se você vai ser desagradada nessa vida — porque você vai. A questão é: como você vai reagir quando isso acontecer?

Quer ir mais fundo nesse tema?

Observe, ao longo da semana, quais expectativas surgem quando alguém não age como você gostaria. Nomear o que sente é um primeiro passo para responder com mais maturidade emocional.

Para continuar a reflexão

Que expectativa você está pronta para deixar ir? E que escolha mais consciente pode nascer a partir dessa resposta?

A maturidade emocional não exige perfeição. Ela começa quando você troca a reação automática por uma presença capaz de escolher.